No Brasil, há mães que acordam todo dia sem saber se o filho está vivo. Não houve velório, não houve certidão, não houve nada que diga: acabou. Esse "não saber" não é abstrato. É a xícara de café que ela ainda faz para dois. É o quarto que não arruma, porque arrumar seria desistir.
A Organização das Nações Unidas instituiu o dia 30 de agosto como o Dia Internacional das Vítimas de Desaparecimentos Forçados. A data nasceu da América Latina, de ditaduras que sequestravam pessoas e devolviam só silêncio. No Brasil, o silêncio continua sendo praticado, só que agora tem outros mandantes: o auto de resistência, a chacina que some dos noticiários, a pessoa em situação de rua que some da calçada e ninguém registra como desaparecida porque ninguém a registrava como existente.
O nome que a clínica tem para isso
A pesquisadora norte-americana Pauline Boss cunhou o conceito de perda ambígua para descrever exatamente isso: uma perda que não tem fechamento. Na perda ambígua, a pessoa ausente permanece psicologicamente presente, e a pessoa fisicamente presente pode estar psicologicamente ausente. Boss identificou dois tipos. No primeiro, o corpo some mas a pessoa fica viva na mente de quem ficou, como nos desaparecimentos forçados. No segundo, o corpo está ali mas a mente foi embora, como em casos de demência avançada. São estruturas distintas, mas compartilham a mesma impossibilidade: não há como lamentar o que não foi declarado perdido.
O luto convencional, mesmo sendo doloroso, tem uma gramática. Existe o corpo, o velório, o enterro, os sete dias, o feijoada de sábado que a família come calada. Esses ritos não são folclore, são infraestrutura psíquica. Eles dizem ao sistema nervoso: isso aconteceu, está acontecendo, vai acabar. Sem eles, o luto fica suspenso num tempo que não avança.
O que isso tem a ver com o Brasil
Muito. O país é, há décadas, um lugar onde pessoas desaparecem e o Estado frequentemente não busca. O Grupo Tortura Nunca Mais, o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, as inúmeras organizações de mães de periferias, o trabalho de comissões da verdade: todos documentam, cada um à sua maneira, que o desaparecimento forçado não é passado. É presente.
Organizações de direitos humanos que atuam no Brasil apontam que parte dos desaparecimentos envolve violência de Estado ou omissão do Estado, especialmente quando a vítima é preta, periférica ou em situação de rua. Quantificar isso é difícil, justamente porque parte desses casos nunca vira registro. Mas o padrão aparece de forma recorrente na documentação dessas organizações, o suficiente para que a clínica não trate o fenômeno como exceção rara.
E é nesse ponto que a pergunta fica difícil para quem atende. O que fazer quando a paciente que entra no consultório não está de luto, mas não consegue seguir em frente? Quando ela não sabe se precisa esperar ou precisa largar?
O que a clínica faz com um luto que não fecha
Pouco, ainda. Não por má-fé, mas por falta de formação específica e, convenhamos, por falta de demanda registrada. As mães que procuram filhos desaparecidos raramente chegam à clínica privada. Chegam às associações, às igrejas, às esquinas onde outros familiares também esperam. O sistema público de saúde mental, quando funciona, às vezes as encontra. Mas a capacitação para atender esse tipo de luto é irregular.
A literatura clínica internacional tende a apontar algumas direções. Não se trata de empurrar o luto para o fechamento, porque esse fechamento pode não vir. Trata-se de ajudar a pessoa a viver com a ambiguidade sem que ela destrua o presente. Isso exige reconhecer que a incerteza é real, não distorção cognitiva. Não é catastrofização. É que a situação é, de fato, catastrófica e não resolvida.
Alguns profissionais que trabalham com familiares de desaparecidos relatam que o mais urgente, muitas vezes, é o reconhecimento. Nomear o que acontece como perda ambígua, dizer que existe um conceito para isso, que outras pessoas viveram isso, pode ser o primeiro alívio de anos. Não porque o conceito conserta. Mas porque retira da pessoa a ideia de que ela está louca por não conseguir "superar".
O rito que o Estado não oferece
Há países que criaram rituais coletivos para isso. Memoriais, cerimônias de reconhecimento estatal, documentação pública das vítimas com nome e rosto. O Brasil tem experiências esparsas, concentradas sobretudo nas comissões da verdade que investigaram a ditadura militar. Para as vítimas de violência contemporânea, o rito coletivo quase não existe.
As mães que se organizam nas periferias criam os próprios ritos. O cartaz com a foto. O aniversário que vira ato público. A caminhada na data do desaparecimento. Esses atos não são só militância, são trabalho de luto coletivo. São a forma que comunidades encontram para dizer "isso aconteceu" quando o Estado não diz.
A clínica que trabalha com trauma político e social aprende, a contragosto, que o consultório tem limites. Que o sofrimento de quem perdeu alguém para a violência de Estado não se resolve só na escuta individual. Que às vezes a pessoa precisa de justiça, e justiça não é objeto de trabalho clínico, mas é condição para que o psíquico se mova.
Isso não é impotência. É honestidade sobre o que cada campo pode fazer. A psicologia pode nomear, pode acompanhar, pode sustentar. Mas não pode devolver o corpo. E não deveria fingir que pode.
Trinta de agosto existe para lembrar que há famílias esperando. A clínica que não sabe o que fazer com elas precisa, no mínimo, parar de fingir que são casos raros.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.